A Pandemia, a Cooperação e os ODS

A pandemia, a cooperação e os ODS

A Pandemia, a Cooperação e os ODS

A pandemia, a cooperação e os ODS

A atual pandemia está a mudar comportamentos individuais e a aprofundar solidariedades e clivagens entre regiões e países. É, na verdade, a primeira pandemia verdadeiramente global e, nesse sentido, está e vai continuar a desempenhar um papel, positivo e negativo, num conjunto de tensões e tendências de ordem geopolítica que já vinham a decorrer anteriormente, entre as quais um ataque às principais fundações da ordem multilateral instituídas no pós-2.ª guerra mundial e, também, um recuo visível da democracia liberal em variadas geografias. É ainda cedo para predizer com alguma segurança qual o impacto que a atual crise humanitária, de saúde pública, mas também política e económica vai ter nos próximos tempos e se vai consolidar as pulsões nacionalistas ou, eventualmente, reforçar os laços de solidariedade entre países e povos.

Um aspeto particularmente importante para o futuro das organizações e pessoas que trabalham nos domínios da cooperação para o desenvolvimento é procurar aferir os prováveis efeitos da pandemia e suas sequelas políticas e económicas na União Europeia e das transformações que poderá ocasionar nas prioridades e no financiamento para a cooperação. Neste sentido, convém ter presente que algumas dinâmicas fundamentais estavam já em pleno curso e que parte das tensões a que assistimos entre lideranças europeias radicam em fatores que antecedem e ultrapassam a forma de abordar e lidar com a pandemia. A nova designação dada de Parcerias Internacionais acaba por indicar, de certa forma, as modificações que já estavam a ocorrer nos domínios da cooperação, integrando-a, progressivamente, no contexto mais vasto dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

De certa forma, a aprovação dos ODS em 2015 expressa a forma como a globalização mudou os contextos reais e o modo como estes contextos reais estão a mudar as regras do jogo. Contrariamente aos Objetivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), aprovados no início do presente século, que mantinham muito da lógica subjacente à ajuda Norte – Sul, continuando a olhar para o mundo com lentes económico-geográficas, os ODS quebram com esta visão e olham para o mundo de forma integrada, ou seja, há pobres e ricos em todo o lado e a ajuda e solidariedade é olhada de forma global. Ademais e, em paralelo com a agenda do clima aprovada no mesmo ano em Paris, o planeta (ou seja, a sustentabilidade dos recursos naturais e do ambiente de vida) torna-se cada vez mais um dos aspetos centrais das políticas de cooperação.

 

Artigo de Fernando Jorge Cardoso, Especialista em Estudos Africanos e do Desenvolvimento e Consultor da Valle Flôr Consulting